
Logo tudo volta ao normal
Que normal?
De que normal, exatamente, estamos falando?
Seria daquele normal no qual vivemos pensando somente no próprio umbigo, produzindo lixo, poluindo os ares, mares e rios, destruindo florestas e nossas riquezas naturais para podermos comer carne no jantar? Ou aquele normal em que estamos tão ocupados indo e vindo, cuidando tanto da própria vida, que não paramos nem para olhar para a necessidade do outro, ou para refletir sobre como as nossas escolhas individuais afetam o coletivo – mas o coletivo mais amplo mesmo, que envolve não só outros humanos, mas também nossa flora e fauna, o planeta como um todo? Ou ainda aquele normal no qual a corrida por status em redes sociais, pelos produtos mais novos, pelas selfies mais atraentes e exteriores mais bem cuidados que o nosso interior, ofuscavam nossos valores mais nobres, fazendo-nos esquecer de que somos todos, essencialmente, iguais na nossa condição humana?

Quanto tempo foi necessário para que, isolados em casa, começássemos a assistir as cenas de animais silvestres, selvagens e marinhos, ocupando os espaços urbanos que lhes tiramos, ou para que densas camadas de poluição dessem espaço para o ar limpo e cristalino nos céus das metrópoles, palcos agora vazios das nossas vaidades, individualismos, veículos com assentos de couro e ar condicionado nos levando de espaços fechados para outros espaços fechados?
Será este o normal para o qual queremos voltar? Sair do isolamento propriamente dito para voltar às nossas vidas igualmente isoladas, em que o outro serve apenas de espelho para validar nosso valor, em que corpos aparentemente em forma escondem distúrbios alimentares solitários, em que moramos em residências protegidas por muros e códigos de segurança, para que a violência da desigualdade social (para a qual não queremos olhar) não nos atinja, ou em que marcar posição social servindo pratos gourmet com carnes “nobres” nos parece mais relevante do que proteger a Amazônia, que segue sendo destruída para sustentar nossa indústria pecuária e nossos caprichos de paladar?

Não, obrigada. “Não é sinal de saúde estar adaptado a uma sociedade doente”. Os limites físicos das paredes das nossas casas e “apertamentos” são apenas símbolos, materialização de um isolamento que já vivíamos, mas andava mascarado pelo mero direito de ir e vir – que irônica essa nossa vida… E tornam-se insuportavelmente incômodos porque nos forçam a olhar nos olhos da nossa incompetência enquanto espécie em cuidar e nos responsabilizar pelo planeta do qual dependemos para existir.
Essa responsabilidade, a delegamos a outros. Competentes ou não, não importa. Desde que o esforço individual não esteja envolvido, ficamos felizes em apontar dedos, dizer que a China é que tem hábitos alimentares irresponsáveis, que o vizinho não recicla o lixo, que “alguém” tem que cuidar para evitar as queimadas.
Mas tomar as rédeas do que a responsabilidade individual pode cumprir, aí é pedir um pouco demais. Excluir produtos de origem animal da alimentação, o passo mais imediato, simples e viável para resolver boa parte dos problemas atuais relacionados ao meio ambiente (e caminho único para prevenir pandemias como esta, justo esta que vivemos agora), é coisa que muitos enxergam como extremismo desnecessário. “Tudo em moderação”, dizemos – como se a responsabilidade ambiental, de repente, virasse uma questão de direito de escolha de estilo alimentar.

Não, gente, não… essas escolhas, esses direitos que chamamos de individuais esbarram diretamente no direito do outro – de todos os outros, de viverem, de irem e virem, sem imposições inevitáveis de lockdown ou de vida confinada em currais e subjulgada, simplesmente porque as vendas sobre olhos sócio culturais nos cegam sobre as obviedades da questão. É a mesma lógica, em menor escala, daqueles que, em isolamento total, se revoltam com a displiscência dos que não o respeitam.
E são tão densas essas vendas, que mesmo quando se imagina que uma pandemia tirando milhares de vidas e destruindo economias será suficiente para provocar reflexões e mudanças, apenas uma parcela das pessoas se dá conta de que sequer há reflexão a ser feita.
Quando é, exatamente, que a luz sobre as cabeças estalam “eureka”, que a ficha cai e suficiente massa crítica entende que escolha individual e responsabilidade coletiva compartilham arestas imensas e resolve agir, ao invés de simplesmente cobrar ação? Será que isso acontece quando, “logo” voltarmos ao “normal”, aquele no qual enclausuramos e matamos animais para consumo, criando condições ideais para a próxima pandemia aparecer – talvez na forma de um vírus com letalidade de 50% ao invés de 1%, quando a mudança de hábitos deixar de ser um direito para passar a ser questão de sobrevivência? Ou será que já não é, mas simplesmente negamos, porque aceitar implica em abrir mão de um estilo de vida com carnes, leite e ovos?

E mais, será que neste momento a mudança ainda acontece a tempo de poupar nossas vidas egocêntricas, ou será que neste cenário nos veremos estruturando novas sociedades subterrâneas, a exemplo da narrativa do filme Os 12 Macacos – que em 1996 já falava no desespero de uma civilização contemporânea em voltar no tempo e tentar retornar à superfície, com a compreensão de que o passado não pode ser mudado nem com muita tecnologia – pode apenas ser melhor compreendido?
Se em tempos de corona vírus e isolamento social não conseguimos voltar, minimamente que seja, neste tempo de escolhas irresponsáveis que chamamos de “normal”, para refletir sobre o que exatamente já poderíamos agora fazer diferente, que Deus proteja nossas vidas, porque somos totalmente incapazes de nos proteger de nós mesmos.
E não nos esqueçamos desse nosso senso de urgência que clama pelo “logo” irreflexivo, como se o único problema fosse vencer este vírus e não, concomitantemente, adotar medidas para prevenir o próximo.
Fica ainda mais preocupante quando, em um país com mais de 200 milhões de habitantes, um terço da população ainda apóia a psicopatia presidencial, que se auto define como “especialista em matar”, que demonstra ausência completa de consciência coletiva e ambiental e que serve de exemplo para reflexões opostas às que poderiam nos servir de esperança para um “normal” no qual a vida humana seja viável, dentro de noções de direitos e liberdades, que muitas gerações lutaram para conquistar. Não é apenas lamentável – é um ultraje, uma agressão ao direito à vida, um descaso (mais uma vez umbiguista), que desconsidera não só o coletivo nacional, mas também internacional.
Mas vamos, ainda, além: quando as palavras dos outros dois terços se opõem à psicopatia dessa pseudo liderança, mas suas atitudes escancaram o mesmo descaso com o coletivo na forma de consumo alimentar irresponsável, fica bem comprometido nosso direito de atirar pedras achando que nosso telhado de vidro é menos frágil. Não é. Quem não está disposto a mudar seu estilo de vida e funcionamento em prol da vida humana, não está em posição de criticar o estilo e funcionamento presidencial que trata a vida humana com displiscência e como responsabilidade alheia.

Quando nos exaltamos com as demonstrações de ignorância e ultraje de falas como “E daí? Quer que eu faça o que?”, mas agimos como se nossa própria responsabilidade individual fosse problema dos outros, não existe nenhuma coerência neste julgamento. O que não torna a postura do presidente correta – e sim, a nossa, tão errada quanto. Talvez, os que não são psicopatas, não se identifiquem com o “e daí?”. Mas o “quer que eu faça o que?” pede respostas – e o seu comprometimento com elas, se quer minimamente poder se abismar com a irresponsabilidade do Palácio do Planalto na figura do Presidente da República. Que, aliás, está mais preocupado em beneficiar pecuaristas do que em proteger a Amazônia do desmatamento. Você, que se opõe a ele, mas não abre mão do seu churrasco de fim de semana, pergunte-se se pode se isentar de co-responsabilidade. Porque sem demanda por carne, não há indústria pecuária. Igualmente, se está revoltado com a displicência com a vida humana demonstrada pelo presidente, mas continua a consumir animais, criados em condições ideais para o surgimento de outras epidemias (como já foi o caso da gripe aviária e sunína, por exemplo), será que também não é displicente com a vida humana?
Na verdade, talvez não. Talvez você ainda não tenha se dado conta da relação entre uma coisa e outra. E, por isso, sinto-me responsável por deixar essa relação clara, para que você possa tomar suas decisões de forma consciente.
Quer que eu faça o que?
Vamos, então, olhar para algumas respostas possíveis para este questionamento:
- Quem sabe podemos aproveitar o momento do isolamento para encarar nossa responsabilidade individual e rever nossos hábitos?
- Ou talvez buscar informações sobre o que representa o maior risco a pandemias futuras?
- Entender que estes riscos estão diretamente associados às indústrias de exploração animal para consumo – em qualquer lugar do mundo, de qualquer tipo de animal.
- Entender que a área global utilizada para plantio de grãos e cereais para alimentar esses animais e transformar em uma fração de alimento, proporcionalmente falando, se destinada ao plantio de vegetais para consumo humano poderia acabar com o problema da fome no mundo.
- Compreender que, para produzir um quilo de carne, são necessários 15 mil litros de água e que a indústria da carne é a maior cunsumidora de água no mundo (1/3 de toda a água consumida), enquanto falta água potável para bilhões de pessoas – as mesmas que, provavelmente, não têm acesso a carnes como fonte de alimentação, ou mesmo aos grãos que são destinados à alimentação estes animais.
- Entender que a responsável pelo maior percentual de emissão de gás metano é essa mesma indústria que atende à demanda por consumo de carnes e leite – que nós criamos e mantemos através das nossas escolhas alimentares.
- Que as pescas que nos trazem os peixes dos quais insistimos em nos alimentar dizimam espécies marítimas, causando desequilíbrios ambientais que nos afetam diretamente.
- Que para fazermos bolos e omeletes, todos os pintinhos machos da indústria dos ovos são triturados vivos logo após o nascimento por não possuírem valor econômico.
- Que o leite que chega aos nossos copos e a carne que chega aos nossos pratos vêm de criações cruéis e desumanas, em ambientes propícios à transmissão de vírus de animais para humanos.
- Que o uso excessivo de antibióticos na indústria animal representa uma segunda camada de risco à saúde pública, com possibilidades reais de desenvolvimento de bactérias resistentes, gerando um retrocesso nos nossos avanços médicos e trazendo de volta a mortalidade para doenças que hoje são resolvidas rapidamente através destes mesmos antibióticos.
- Que o nosso desejo por praticidade e comodidade cobra um alto preço da nossa saúde individual e coletiva.
- Que alimentos de origem animal são absolutamente desnecessários à nossa sobrevivência – e mais: até mesmo nocivos à nossa saúde.
- Que embora a indústria pecuária tenha papel significativo na economia, quando ela própria representa risco para futuras pandemias com consequências econômicas ainda mais catastróficas, não é coerente tentar justificar sua manutenção.
- Que além da cura para o corona vírus, precisamos também buscar as curas para as doenças “sócio-econômico-político-culturais”, que perpetuam atitudes isentas de reflexão e consciência coletiva, pilares da preservação da vida humana e da saúde do planeta.
- Que o sentimento defensivo que emerge em você, não vegano lendo este texto, é ao menos em parte indicativo dessa venda sócio cultural que lhe foi colocada, muito antes da máscara que hoje protege suas vias aéreas – e que sua reação defensiva não invalida o caráter factual destes argumentos nem a sua coerência lógica – mas compromete sua capacidade de ser parte da solução. Já estive deste outro lado. Também já fui parte do problema.
- Talvez também possamos responder essa pergunta pensando que compreensão é um excelente primeiro passo, mas que é no exercício prático de alternativas ao antigo “normal” que reside outro “normal” coerente com o nosso desejo de sobrevivência enquanto espécie e de qualidade de vida para a nossa e para futuras gerações.

Queria acreditar que exista massa crítica suficiente dessenvolvendo reflexões e atitudes para criar nosso futuro “normal” de forma mais consciente. E, embora observemos fechamentos de múltiplos frigoríficos e aumento explosivo de procura por carnes vegetais e outros produtos veganos pelo mundo todo durante a pandemia, ainda é ponto de pergunta se este percentual populacional é suficientemente representativo ou se, sequer, essa é uma mudança temporária ou permanente. E fico com a sensação de que muita gente está mais preocupada em “voltar logo ao normal” do que em tentar entender o que aconteceu para que este nosso antigo normal tenha sido destruído de forma tão globalizada, incisiva e preocupante – e como podemos, individualmente, nos responsabilizar por atitudes presentes e futuras que possam prevenir outras catástrofes envolvendo disseminação de vírus.
Não existe perfeição na condição humana e esta é apenas uma, de muitas possíveis reflexões sobre o momento atual. E a faço, ciente de que provavelmente há outras questões igualmente relevantes que merecem minha atenção e engajamento. Mas o fato permanece, que esta é uma reflexão necessária – sob risco de não termos uma segunda chance ou um segundo “normal” ao qual voltar no futuro. Em situações críticas como esta, quem não é parte da solução, automaticamente torna-se parte do problema. Não consegue tornar-se vegano da noite para o dia? Tudo bem, muitos de nós também não conseguimos. Mas comece de algum lugar – e não pare. Reduza o consumo de alimentos de origem animal, tire uma coisa de cada vez até que uma vida sem estes produtos se torne natural. Seu novo normal. Eduque-se, informe-se e permita que esta reflexão motive suas atitudes e escolhas – porque a alienação, intencional ou não, é um risco que não podemos mais nos permitir correr.
Não será logo… mas quando voltarmos ao “normal”, seja ele como for, pense se nele você quer encontrar apenas seus amigos, familiares e a cura para a COVID-19 ou também uma humanidade eticamente, socialmente, economicamente e culturalmente em processo de cura, menos individualista, mais consciente, responsável e mais saudável. E pense também em qual pedaço lhe pertence de responsabilidade com a construção e produção desta cura. Deixemos que a ciência cumpra o seu papel na tentativa de nos salvar dessa pandemia, enquanto cumprimos o nosso – de nos salvar de nós mesmos.


