Veganismo

Veganismo e a nossa herança cultural

Logo no início da minha caminhada no veganismo, um questionamento se fez presente – e ele levaria 7 longos meses para ser resolvido. Essa resolução se deu através de muita reflexão, combinada à somatória de pecinhas soltas encontradas em textos e vídeos sobre o veganismo.

O questionamento era referente à forma como nos relacionamos com nossa herança cultural: ao excluir todos os alimentos de origem animal da alimentação, em tese abrimos mão de consumir pratos que são parte da nossa cultura, que representam uma expressão gastronômica de muitas gerações e embasam interações sociais de importante caráter cultural.

Esse tipo de construção é importante porque culturas são blocos fundamentais da identidade de populações e indivíduos. Em outras palavras, abrir mão de partes de elementos que compõem a cultura, afeta aspectos relevantes de identidade.

A questão se fez ainda mais forte quando olhei pelo ângulo da criação do meu filho, na época com 4 anos. O veganismo representa uma mudança significativa de estilo de vida e ao fazer uma viagem no tempo e imaginar meu filho adulto, olhando para a as memórias da própria infância, percebi que uma infância vegana em muitos aspectos seria diferente de uma não vegana:

Eventos como churrascos e feijoadas de família teriam outros sabores, o cheiro da carne na churrasqueira acompanhado de música, adultos conversando e crianças brincando não teria o mesmo significado, o sabor do tender e peru de Natal não estariam entre essas lembranças, a bacalhoada tão tradicional da minha família não seria transmitida para a geração dele, através dele. O que seria das festas juninas, da Páscoa, aniversários infantis e de outras comemorações tradicionais? E dias na praia sem peixe, camarão e crustáceos, picolés de chocolate derretendo e escorrendo pelo braço polvilhado de areia? Invernos sem fondue de queijo e de carne… Filha de pai nordestino, tendo tido tantas experiências com a culinária da região, seria eu a pessoa a interromper essa cadeia de transmissão de apreciação desses pratos?

Indo além, o que isso significa quando a massiva maioria da geração do meu filho compartilhar, coletivamente, dessa herança cultural, ao passo que ele viveu uma construção completamente diferente? E, diante disso tudo, seria justo impor uma alimentação vegana a uma criança, pra começo de conversa?

Quanto mais eu pensava no assunto, mais eu me aproximava da senssação de estar diante de um empasse: de um lado as minhas convicções éticas, de outro um sentimento de estar traindo minha herança cultural e jogando um jogo que afetaria a percepção de herança cultural do meu filho. Este impasse chegou próximo a me tirar do caminho do veganismo, tamanha a relevância dessas considerações. Mas a resolução dele reforçou minhas convicções ideológicas, solidificando um pensamento que agora divido com vocês.

Minha elaboração filosófica sobre o assunto:

Foi através de uma fala do Earthling Ed, ativista vegano britânico, que todas as peças que fui coletando ao longo do caminho se juntaram, formando uma imagem clara desse quebra cabeças.

Evidentemente, a herança cultural não é formada apenas pela cultura gastronômica ou mesmo de interações sociais e festas típicas. Ela é formada pela história, pelos valores de um povo, pelos comportamentos de massa, pela música e outras expressões artísticas, pela língua, pelos estilos de vida e hábitos coletivos, entre outras coisas.

E a cultura é um organismo vivo que se transforma ao longo do tempo – carrega sua história e acrescenta pedaços novos a cada geração.

Se agora voltarmos no tempo e olharmos a sociedade de 200, 300 anos atrás, vamos encontrar um modelo de funcionamento muito diferente. E isso não acontece simplesmente em função de avanços tecnológicos: houve uma modificação estrutural, social, política e de valores também.

Num passado não muito distante, escravizávamos, explorávamos e vendíamos seres humanos como objetos, com base em cor de pele. A Alemanha nazista dizimou judeus com base em uma percepção de supremacia ariana. Num passado mais distante, a inquisição perseguiu e matou pessoas com discurso embasado em ideologia religiosa. São muitos os exemplos de opressão, exploração e homicídios em massa presentes na história do mundo – e do Brasil. Até mesmo a ditadura militar se estabeleceu sobre bases ideológicas de poder e autoritarismo, que também pressupõe a dinâmica de opressor vs oprimido.

Dentro de muitos desses contextos históricos, as pessoas compactuavam com essas atrocidades, porque as percepções e ideologias acabavam se estabelecendo culturalmente. Se pensarmos na escravidão, o lado opressor estava cheio de famílias que consideravam absolutamente normal o dia a dia com escravos dentro de suas casas, lhes servindo, trabalhando em condições exploratórias e cruéis para produzir riqueza a seus senhores.

As primeiras pessoas a questionarem o status quo e a levantarem bandeiras anti escravidão não foram vistas com bons olhos. Porque representavam um risco ao modelo estrutural da sociedade da época. Ovelhas negras que não compartilhavam dos valores sócio culturais estabelecidos.

Então, a pergunta que precisamos fazer é a seguinte: o fato de uma construção cultural ser compartilhada socialmente a torna, automaticamente, eticamente correta ou aceitável? Certamente que não. Quando um comportamento generalizado espelha construções sócio culturais, isso nos dá apenas informações sobre níveis de homogeneidade, mas não nos diz nada sobre sua coerência ou senso ético. Quem hoje olha para a escravidão como algo que pudesse ser correto? É porque a construção deixou de ser ética através da cultura, ou porque ela nunca foi ética e, através da cultura, a percepção sobre a construção se alterou?

E ficam ainda os seguintes questionamentos: com o benefício de olhar para o passado com a compreensão de suas consequências e implicações éticas e práticas, de que lado moral você preferiria estar diante da questão da escravidão – ou da inquisição, ou do Nazismo? E, quando você escolhe seu lado, isso se baseia em imposição cultural (e legal) ou em uma percepção individual autêntica de igualdade e empatia?

Vamos então falar em igualdade e empatia:

Empatia consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo“. (Fonte)

Igualdade “é a ausência de diferença. A igualdade ocorre quando todas as partes estão nas mesmas condições, possuem o mesmo valor ou são interpretadas a partir do mesmo ponto de vista, seja na comparação entre coisas ou pessoas. A palavra igualdade está relacionada com o conceito de uniformidade, de continuidade, ou seja, quando há um padrão entre todos os sujeitos ou objetos envolvidos.” (Fonte)

Assim, uma percepção de empatia e igualdade, pressupõe que você compreenda que o outro compartilha suficientemente de semelhanças a você (ainda que diferenças existam) e que você consegue se colocar no lugar do outro para avaliar os contextos éticos que envolvem suas decisões e atitudes.

Igualdade e empatia também pressupõem uma percepção que exclui conceitos de supremacia ou superioridade sobre o outro.

Como isso se aplica ao veganismo:

A forma mais fácil de explicar essa relação é falarmos sobre animais de estimação e os destinados ao consumo. Nós dividimos essas categorias com base em percepção cultural. Falando especificamente no Brasil, culturalmente, não matamos gatos e cachorros para nos alimentar, não os criamos confinados em jaulas ou gaiolas, explorados pelo seu leite ou carne, não os torturamos para entretenimento ou qualquer outro fim – e indivíduos envolvidos em práticas dessa natureza estão sujeitos a julgamento e punição por lei. Por que existe a lei, em primeiro lugar? Porque cultural e coletivamente concordamos que estes animais não devam ser alvos dessas atividades, que julgamos como cruéis – o que, por sua vez, vem da nossa empatia por eles.

Por outro lado, temos uma massiva indústria que pratica livremente todas essas atividades previstas em lei para animais domésticos, contra outros animais como vacas, porcos, galinhas, perus, patos, etc. E nos alimentamos destes animais (e seu leite e ovos), com absoluta naturalidade e ampla aceitação social. Ninguém é julgado ou preso por comer churrasco de picanha, strogonoff de frango ou um omelete, nenhuma indústria é punida por enclausurar, torturar e matar estes enimais.

Este é o nosso contexto – e contrato – cultural.

Voltemos às considerações sobre empatia e igualdade: quando categorizamos animais de estimação e os protegemos, estamos considerando as semelhanças que têm conosco: capacidade de sentir dor e medo, capacidade de criar vínculos, direito à vida, direito ao respeito. Também levamos em conta os vínculos afetivos que nos permitimos criar com eles, que dividem suas vidas conosco, muitas vezes considerados como membros da família. Deles cuidamos com carinho e responsabilidade, os levamos para passear e viajar, recebem cuidados de higiene e manifestações de afeto nossas. A eles também damos enterros dignos ou cremação quando se vão. Ao mesmo tempo, para fins tanto legais quanto relacionais, desconsideramos a diferença mais evidente entre nós e eles: a de que eles não são humanos.

Por outro lado, quando enclausuramos, exploramos e matamos animais destinados a consumo, ignoramos todas essas mesmas as semelhanças que valorizamos nos animais domésticos e justificamos estas atividades bárbaras com base na diferença – de repente, o fato de não serem humanos tira deles, de alguma forma, o direito à vida, dignidade e à liberdade. Ao passo que enxergamos animais de estimação como suficientemente parecidos a nós para serem tratados como integrantes das nossas famílias humanas, a percepção sobre animais “de consumo” é que de alguma forma não partilham dessa igualdade, fica no ar uma percepção de superioridade e propriedade humana sobre estes animais e os tratamos, literalmente, como produtos.

Isso realmente não tem nenhum embasamento lógico – ou mesmo ético. Fora do contexto cultural, isso não faz o menor sentido.

Indo ainda além, todas as leis criadas para regulação de comportamento social, envolvendo crimes de homicídio, violência, tortura física ou psicológica, sequestros e cativeiros, roubos, etc, partem dos mesmos pressupostos de empatia que nos colocam como seres igualitariamente dignos dos mesmos direitos e liberdades. Estas escolhas legais deixam claro que seus critérios de criação consideram as semelhanças entre seres humanos, muito embora, individualmente, sejamos completamente diferentes uns dos outros em incontáveis aspectos. O que nos embasa em nossas leis são as nossas similaridades, o que temos em comum – não nossas diferenças. Por que, então, este embasamento não está espelhado na forma como nos relacionamos com os animais criados para consumo? E por que a diferença de critério entre diferentes tipos de animais?

E aí voltamos à questão da herança cultural:

Estamos sempre fazendo escolhas com relação aos nossos comportamentos e posturas, decisões diárias, estilos de vida. Em parte embasados por cultura, em parte por filosofias individuais e influências diversas. E recaem sobre duas categorias: escolhas conscientes e escolhas inconscientes. As conscientes pressupõem reflexão, as inconscientes são os comportamentos no piloto automático que vêm da nossa criação familiar, contextos de vida, aspectos sócio culturais e valores passados como verdades, que nunca questionamos – entre outras coisas.

Inseridos em um contexto sócio cultural onde explorar e matar animais para consumo (e consumir estes animais e seus derivados na forma de carnes, leite, ovos, couro, etc) é algo amplamente aceito e praticado, entramos em comportamentos automáticos associados à segunda categoria, que envolvem ausência de questionamento sobre o status quo.

Isso é bastante complicado, porque ao nos isentarmos desses questionamentos, propagamos práticas e comportamentos que, além de não possuírem nenhum sentido lógico ou ético, ainda aparentam ser justificáveis através de falácias sobre as diferenças entre nós e os animais que coabitam nosso planeta, excluindo completamente nosso senso de empatia da equação.

A resolução da questão:

Quando compreendi que essas escolhas diárias de consumo e de estilo de vida também fazem parte da nossa identidade, de repente, a identidade em si entra em protagonismo e fica a grande pergunta: quem eu sou e quem quero ser?

De que lado dessa história eu quero estar inserida quando 100, 200, 300 anos à frente, o passado puder ser observado com o benefício do conhecimento das consequências e bases morais das nossas escolhas atuais?

E aí não restaram dúvidas.

Eu quero estar no lado da história que, ao observar, entender e questionar as práticas culturais relacionadas à alimentação e ao consumo, optou por defender através de prática e dialética o que era logicamente ético e igualitário. Ser parte integrante do grupo de pessoas que optou por não compactuar com o consenso cultural da época, porque ele não era representativo dos nossos valores de igualdade, empatia e respeito – a todos os seres vivos.

Quero estar no lado da história que interrompeu, ao menos no exercício da maternidade, a propagação de práticas claramente ilógicas, cruéis, supremacistas e desumanas. Que teve coerência ao não diferenciar animais domésticos de animais para consumo que, assim como nós, sentem dor e medo, criam vínculos e conexões emocionais e familiares e cuja vida e liberdade deveriam ter o mesmo valor intrínseco que percebemos em nós, humanos. Que defendeu essa escolha porque compreendeu que a amplitude deste problema não se limita aos animais, mas aos impactos ambientais que colocam em risco gerações futuras e também a nossa saúde individual e coletiva.

Eu resumo, eu quero estar do lado da história que ao menos tentou alterar o curso cultural dela para melhor, deixando para o meu filho e futuras gerações o que me for possível de exemplos construtivos, humanitários, éticos, empáticos e lógicos.

E quero poder dizer ao meu filho que, se os sabores da infância dele foram diferentes das outras crianças, foi porque a mãe dele entendeu que paladar não é justificativa plausível para sofrimento e tortura infligidos sobre seres inocentes e indefesos. E que essa escolha representa uma postura proativa de isenção de coparticipação em opressões e práticas exploratórias – e uma das muitas formas de dar voz a quem não pode falar por si próprio.

Por outro lado, eu definitavente não quero estar do lado da história que compactuou com a prática oposta por ausência de reflexão, comodismo, preguiça, preferências de paladar – e, principalmente, porque “todo mundo faz assim”. Ou por simplesmente fechar os olhos para algo que, claramente, não corresponde às nossas próprias definições de empatia e igualdade.

Assim, essa é a herança cultural que quero deixar para o meu filho.

Sermos veganos, além de perfeitamente seguro à nossa saúde (e até mesmo mais benéfico), ainda me ajuda a transmitir a ele, através do exemplo, valores éticos e morais importantes, que se extendem muito além da questão animal, definindo conceitos de respeito, dignidade e igualdade, que são a base da nossa estruturação social e das nossas leis.

Por fim, se abraçar o veganismo representar uma traição à herança cultural antepassada, é por um bom motivo. Porque a opção contrária representa uma traição à herança cultural mais ética que podemos construir para gerações futuras. Em outras palavras, acontece uma traição dessa herança em qualquer uma dessas escolhas. Com um porém: ao passo que a herança cultural que recebemos tem enorme relevância, ela é reflexo de visões, ideologias e comportamentos passados, pensados por outras pessoas, dentro de outros contextos. No presente, se percebemos construções falhas e incoerentes e, através de reflexão e troca de informações desenvolvemos visões e ideologias mais lógicas, humanas e mais benéficas, penso que temos responsabilidade moral de tentar modificar nossos comportamentos e estruturação ética e sócio cultural para acompanhá-las – ao invés de nos acomodarmos, em nome de herança cultural, na perpetuação de práticas que possam ter feito sentido em contextos passados, mas no contexto presente dizima espécies inteiras, compromete a saúde individual e coletiva e destrói nossos recursos naturais dos quais dependem a vida.

“A indústria de animais é mais um sinal do quanto a nossa capacidade tecnológica evoluiu mais rapidamente do que o nosso senso ético.”

Os eventos sócio culturais tão intrínsecos às nossas interações, não precisam deixar de existir. Nós participamos deles em outros formatos, com pratos adaptados. Porque alimento não é só o que entra e sustenta nossa fisiologia, mas também as idéias e ideais que sustentam nossa humanidade.

E, com relação à pergunta: “É sequer justo impor uma dieta vegana a uma criança?” – respondo com outra pergunta: É justo impor uma dieta com animais mortos a uma criança, quando ela não não tem compreensão do contexto maior que levou o animal ao seu prato e não pode fazer uma escolha consciente sobre isso? A verdade é que todo tipo de convicção é, em tese, impsota a crianças no mundo inteiro: o próprio estilo de alimentação (seja qual for), práticas e crenças religiosas, estilos de vida, métodos de educação… A pergunta sobre ser ou não justo “impor” uma dieta vegana a uma criança só pode ser feita por alguém sem a real compreensão sobre o veganismo – e sobre suas próprias escolhas alimentares. E também só acontece porque o veganismo não está ainda significativamente representado no contexto cultural estabelecido. E, como já sabemos, contexto cultural estabelecido não determina seu status ético. Apenas nos fala sobre homogeneidade de comportamento.

E você, qual herança cultural quer deixar?

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