Alimentação Infantil

Alimentação Infantil

O assunto é alimentação infantil, mas na verdade, antes de falar dele, precisamos falar sobre alimentação adulta. A sua, especificamente.

Sábia é a frease que diz que “crianças nunca foram muito boas em ouvir os adultos, mas nunca falham em imitá-los”. Você já sabe o que vou dizer: por melhores que sejam suas intenções, tentar incutir na criança hábitos de alimentação saudável que você (ou os adultos do seu núcleo familiar) não praticam ou não estão dispostos a adotar, é equivalente a gritar com a criança para que ela pare de gritar. Não faz o menor sentido.

Tudo começa pelo exemplo.

Você chegou aqui achando que eu ia te dar pílulas mágicas e rápidas para lhe ajudar a fazer seus filhos comerem bem e de forma saudável, não é? Bem, de fato, tenho muitas dicas importantes para te passar, mas se a alimentação da sua família não for ao menos muito parecida com a que você espera que a criança coma, a mensagem “faça o que eu falo e não o que eu faço” passa longe de construção de hábitos e valores para a vida, o cheiro dessa nossa hipocrisia a criança sente de longe e a prática não é sustentável. Além disso, por que você iria querer cultivar a saúde dos seus filhos através de alimentação e não cultivar a sua própria?

Não há pílula mágica: há um processo, com passos e estratégias que requerem o envolvimento, comprometimento e consistência dos adultos, para que a mensagem faça sentido para a criança. Principalmente a mensagem não verbalizada – mas vista e observada.

Por outro lado, a boa notícia é que este processo é menos difícil do que você imagina, se você tiver a orientação correta, o comprometimento necessário e considerar o esforço uma prioridade. E o investimento nesse processo será um dos mais importantes na vida dos seus filhos. Ele é fundamentalmente importante em diversos aspectos associados ao desenvolvimento infantil, prevenção de doenças, construção de hábitos, relacionamento com a comida, estados de humor, entre outros.

E aí, precisamos falar sobre hábitos. Se você já tentou fazer uma mudança de hábito relacionada a um comportamento estabelecido e enraizado desde a infância, sabe quanto esforço e comprometimento são necessários para mudá-lo. Assim, o melhor momento para estabalecer hábitos saudáveis de alimentação é “quanto mais cedo, melhor”. O cenário ideal é aquele que começa quando a mulher se prepara para engravidar, mantendo essa postura durante a gestação, amamentação, introdução de sólidos e assim por diante. Se você pretende engravidar, ou está atualmente grávida, fique atenta aos artigos do blog tratando sobre o assunto. Mas nem todo mundo teve a informação correta e necessária para fazer desta forma, então aqui vamos falar sobre o que fazer daqui pra frente.

Penso que a reeducação alimentar não seja uma prática – mas uma mudança de paradigma, que é catalisado pela conexão entre conhecimento, timing e um propósito. Quando esse insight acontece, a sua disponibilidade de ação será natural. Por isso, dedicar tempo a compreender e, principalmente, internalizar o que é uma alimentação realmente saudável é tão importante. Toda mudança é muito mais provável de acontecer quando o motivo que gerou o desejo de transformação é forte o suficiente. Quando você começa a compreender e a internalizar todos os impactos que o seu estilo de alimentação têm sobre a saúde, a qualidade do sono, níveis de produtividade, energia e stress, humor, capacidade de foco, longevidade, prevenção, desenvolvimento ou agravamento de doenças agudas ou crônicas – físicas ou mentais -, percebe que adotar hábitos realmente saudáveis de se alimentar – e de alimentar seus filhos – é uma das bases mais fundamentais e determinantes não só de níveis ideais de saúde, mas também de funcionamento diário, de qualidade de vida, de prevenção de doenças, de desenvolvimento infantil otimizado.

Eu entrei na área de coaching de saúde, motivada especificamente por alimentação infantil. Mesmo antes da minha certificação, estudava nutrição informalmente de maneira ávida, porque sabia que a janela de oportunidade para criar bons hábitos alimentares com meu filho precisava ser aproveitada e queria que o desenvolvimento dele nos primeiros anos de vida recebesse o “combustível” da melhor qualidade que me era possível. Note que isso é uma postura, uma prioridade estabelecida, que ganha força de ação quando tem um fator motivador que você valoriza. Mas, quanto mais eu aprendia, mais eu notava o quanto a falta de informação (e muita informação contraditória) impedia que outras mães com valores parecidos fizessem o mesmo.

E é difícil conversar com outras mães sobre o assunto, especialmente em grupos heterogêneos. Quando falamos de um cuidado tão básico e essencial como a alimentação das crianças, não são todas as mães que ficam receptivas à informação. Primeiro, porque por mais tato que se tenha, ao comunicar a importância de práticas que elas não adotam, muitas recebem essa fala como crítica e julgamento (ainda que não seja) e entram em modo defensivo. Segundo, porque aceitar uma mudança de postura, implica em colocar em prática um estilo de alimentação (e de vida) que elas não querem, ou acham que não conseguem adotar.

Mas existem também aquelas mães que realmente estão interessadas em aprender e receber orientação – e dispostas a investir energia no processo de adotar hábitos alimentares mais saudáveis para a família e os filhos. É com essas pessoas que eu quero conversar aqui e foi para orientar essas pessoas que eu me tornei coach de saúde.

Se este é seu caso, continue lendo…

É muito difícil, em meio a tantas informações contraditórias e superficiais que chegam a nós pela mídia e outros canais de informação, entendermos o que é realmente saudável. Para termos uma compreensão mais clara e precisa sobre o assunto, precisamos olhar não para estudos específicos, mas para consensos científicos, meta análises e recomendações de órgãos oficiais confiáveis, com objetivos de responsabilidade social no âmbito da saúde, sem interesses econômicos na informação divulgada.

Esse critério é importante, porque existem estudos científicos patrocinados por indústrias e conduzidos com viés econômico em mente.

Além disso, como bem coloca o Dr. Samuel Dalle Laste em um vídeo que incluo abaixo na sessão do leite, nem sempre as análises científicas mais recentes correspondem às evidências factuais observadas na prática, então há de se ter senso crítico com relação à evolução da informação, apresentada no formato da ciência e também do pragmatismo, quando recorrente o suficiente.

E, falando em viés, eu precisei fazer uma escolha na minha prática de coach de saúde que não foi simples. O coach de saúde não deve tentar impor ao cliente estilos específicos de alimentação. No entanto, o acúmulo de conhecimento sobre nutrição que adquiri ao longo dos anos apontou um caminho claro: que a dieta vegetariana estrita traz benefícios de saúde incomparáveis em relação a qualquer outro estilo de alimentação.

Não é somente a questão relacionada à saúde – eu abracei o veganismo como postura ética e filosofia de vida, dados os impactos ambientais da indústria animal e da crueldade praticada nas criações visando a transformação de animais em produtos. Quando nos educamos sobre estes impactos causados pelas nossas escolhas alimentares, fica muito difícil compactuar com eles, ainda que em nome de escopo de atividade profissional. Assim, por iluminação de uma pessoa que em muito me ajudou a solucionar esse dilema, resolvi focar minha prática de coaching em indivíduos e famílias que tenham interesse no vegetarianismo estrito, ou já o pratiquem, mas precisem de orientação para equilibrar a dieta e manter a saúde através de uma composição equilibrada de nutrientes, especialmente quando esse estilo de alimentação é também extendido às crianças.

Eu própria, muito antes de tirar minhas certificações, procurei nutricionistas especializados. Sei que as dúvidas são muitas, os receios ainda maiores e o discurso majoritário, seja por desinformação, cultura ou por influência da indústria, nos diz que o veganismo é arriscado para crianças (e adultos), que nessa dieta faltam proteínas e ferro, que é extremista, que vai nos deixar doentes.

No entanto, em uma dieta vegetariana estrita (vegana) bem equilibrada, nada disso acontece. Pelo contrário: os benefícios para a saúde são inúmeros, observáveis na prática e confirmados por inúmeros estudos. As questões relacionadas à proteína são infundadas, o discurso sobre o ferro heme (de origem animal) e não heme (origem vegetal) é falacioso e, com exceção da Vitamina B12, não há nutriente que falte em uma dieta sem protudos de origem animal.

Então, com isso em mente, vamos olhar para alguns consensos (com um ítem mais controverso), para tomarmos decisões bem informadas sobre como alimentar adequadamente a família e os filhos:

Não é saudável e devemos evitar:

  1. Frituras
  2. Embutidos (salsichas, linguiças, frios) e carnes processadas em geral
  3. Açúcar refinado
  4. Carboidratos simples e refinados em geral (farinhas, amido de milho e até mesmo o arroz branco)
  5. Industrializados ultraprocessados (bolachas recheadas, salgadinhos, refeições prontas industrializadas congeladas, sucos artificiais, sucos naturais com aditivos químicos e açúcar, etc.)
  6. Óleos refinados em excesso, em especial os ricos em Ômega-6
  7. Refrigerantes e outras bebidas artificiais
  8. Alimentos com gordura hidrogenada ou parcialmente hidrogenada
  9. Alimentos com outros ingredientes artificiais/aditivos químicos, como adoçantes e corantes artificiais, glutamato monosódico (realçador de sabor), etc.
  10. Sal em excesso
  11. Leites e laticínios

Evidentemente, essa é uma lista de caráter genérico e não exaustiva, que exclui ítens que devem ser evitados por pessoas com condições de saúde específicas, como é o caso do trigo para celíacos, muito embora o glúten seja alergênico de forma geral.

Mas essa lista nos evidencia um denominador comum que pode ser utilizado como parâmetro: quanto mais o homem altera o alimento natural, menos saudável ele fica.

Um ótimo exemplo disso é pensarmos na maçã:

  • comer a fruta integral, com casca, é muito saudável.
  • Se você retira a casca, corta a maçã, cozinha os pedaços, bate e transforma em purê, ele será muito mais saudável do que uma bolacha recheada, mas menos saudável do que a fruta in natura.
  • Se a este purê você adiciona açúcar refinado, instantaneamente compromete a qualidade do alimento.
  • E se você compra um suco de maçã integral, sem aditivos? À primeira vista, pode parecer saudável, mas no processo de extração deste suco, duas coisas relevantes aconteceram: 1) a fibra foi completamente eliminada, enquanto os açúcares permaneceram e 2) a vitamina C ativa se perdeu, porque é fotossensível e oxida rapidamente com a exposição à luz. Portanto, tomar suco de maçã é completamente diferente de comer uma maçã.
  • E se a este suco foram adicionados ingredientes artificiais? Aí, você está tomando algo não muito diferente de uma água com açúcar com potencial tóxico.

Desta forma, fica mais fácil e intuitivo identificar…

O que é saudável:

  • Alimentos integrais, in natura, minimamente processados, crus, cozidos, grelhados ou assados.
  • Variedade na composição da dieta

Sim, são só dois ítens mesmo mesmo. Mas é na imensa diversidade de opções dos alimentos em si, mesmo em dietas veganas, bem como suas formas de combinação e preparo, que encontramos a mágica da alimentação saudável. As principais categorias destes alimentos são:

  • Frutas
  • Verduras
  • Legumes
  • Leguminosas
  • Cereais
  • Sementes
  • Oleaginosas

E os produtos de origem animal, como carnes, ovos, leite e derivados?

As pessoas que se interessam em fazer uma modificação alimentar para os moldes à base de plantas (vegetarianismo estrito), muitas vezes se deparam com questionamentos muito válidos sobre o impacto desse estilo de alimentação na saúde.

Somos culturamente condicionados a achar que as carnes e ovos são necessários para ingestão suficiente de ferro e proteínas, que o leite é necessário pelo cálcio – e as dúvidas com relação a estes aspectos tornam-se ponto de debate na cabeça de quem considera o vegetarianismo estrito. Todas dúvidas muito válidas, especialmente quando nos deparamos com as reações de choque de amigos, conhecidos e familiares, quando o assunto é abordado. Falta informação – e falta também interesse em adquirir compreensão sobre o assunto, porque nos acomodamos culturalmente em nossos hábitos alimentares, sob suposição de que se a maioria faz de determinada maneira, é porque deve estar certo. E porque se essa compreensão levar a uma conclusão que nos force a olhar de frente e a mudar nossas opções alimentares, isso representa uma ruptura significativa com a qual nem todas as pessoas estão dispostas a lidar.

Mas todas essas perguntas foram pontos de debate durante a minha própria transição para o veganismo e, como de nada adianta fazer uma mudança alimentar sem o conhecimento adequado, colocando a saúde em risco, eu mergulhei na informação, que apresento aqui agora.

Vamos olhar para a posição oficial da American Dietetic Association com relação à alimentação vegana:

It is the position of the American Dietetic Association that appropriately planned vegetarian diets, including total vegetarian or vegan diets, are healthful, nutritionally adequate, and may provide health benefits in the prevention and treatment of certain diseases. Well-planned vegetarian diets are appropriate for individuals during all stages of the life cycle, including pregnancy, lactation, infancy, childhood, and adolescence, and for athletes.

TRADUÇÃO: É posição da American Dietetic Association que dietas vegetarianas, incluindo dietas vegetarianas totais ou veganas, apropriadamente planejadas, são saudáveis, nutricionalmente adequadas e podem prover benefícios de saúde na prevenção e tratamento de certas doenças. Dietas vegetarianas bem planejadas são apropriadas para indivíduos durante todos os estágios de vida, incluindo gestação, lactação, primeira infânciam infância e adolescência, e para atletas.

Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19562864

Esta posição deixa claras algumas conclusões lógicas importantes:

  1. Que os alimentos de origem animal (carnes em geral, incluindo carne vermelha, porco, frango e peixes), leites, laticínios e ovos não são necessários à boa saúde.
  2. Que dietas vegetarianas, inclusive as estritasm, são nutricionalmente apropriadas desde que bem planejadas.
  3. Que isso se aplica a qualquer idade, incluindo a infância.

Aí entramos em duas considerações igualmente relevantes:

  1. A expressão de ordem aqui é “apropriadamente planejadas”. Isso não é exclusividade da dieta vegana – qualquer estilo de alimentação mal planejado e praticado não será saudável, com potencial de apresentar carência de nutrientes e causar enfermidades.
  2. Alimentos de origem animal não são necessários à boa saúde, mas se consumidos, são saudáveis?

Para responder essa pergunta, vamos contextualizar as carnes no seu formato de produção atual e olhar para o que a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma das referências de maior credibilidade no mundo, tem a dizer:

CARNES:

Carnes são, factualmente, pedaços de animais. Animais que nascem por métodos não naturais, crescem em confinamento forçado, engordam artificialmente e são abatidos por métodos diversos, desde cortes na garganta, até câmaras de gás.

A indústria de animais existe em função de lucro – não de saúde. E os métodos utilizados para maximização de lucros, que incluem uso frequente de antibióticos, hormônios e alimentação dos animais com grãos transgênicos, mantêm os animais vivos, crescendo e produzindo ao menor custo possível, mas não fazem favores à saúde humana. Existe uma questão muito séria com relação à criação de bactérias resistentes aos antibióticos (resistência microbiana) atualmente disponíveis a humanos, que em sua massiva maioria são utilizados extensivamente na pecuária. Isso vira uma questão de saúde pública e individual relacionada ao consumo de carnes.

Ao ingerir a carne de um animal, estamos potencialmente ingerindo todas essas substâncias incluídas no pacote que buscamos: ferro, proteína e vitamina B12. De brinde, recebemos também altas quantidades de gordura saturada e ausência de fibra. Será que, para adquirirmos estes nutrientes, precisamos pagar o preço dos malefícios associados ao consumo de carne?

Já samemos que não – com exceção da Vitamina B12 (falamos sobre ela depois), tanto ferro quanto proteína existem em fontes abundantes de origem vegetal, sem estes malefícios associados e com ganhos de outras vitaminas, minerais e fibras.

A indústria animal se respalda em hábitos alimentares culturais e representa uma fatia significativa da economia. Com base nestes fatores, as recomendações associadas ao consumo de carnes são sempre incluídas em guias alimentares. Ainda assim, todos os maiores órgãos de saúde do mundo, bem como guias alimentares de diversos países (incluindo o brasileiro), não recomendam que se consuma carnes além de porções semanais significativamente inferiores às que são consumidas atualmente. Então, precisamos nos questionar se sequer a inclusão das carnes como grupo alimentar nestes guias nacionais é feita porque são considerados alimentos saudáveis ou porque refletem hábitos de alimentação amplamente estabelecidos, que não podem ser ignorados pelos órgãos de saúde. Parece razoável pressupor que, embora existam sim benefícios associados ao consumo de carnes, os órgãos de saúde busquem minimizar os riscos conhecidos através de recomendações de redução de ingestão, que são a alternativa mais viável, culturalmente falando.

E o que tem a OMS a dizer sobre o consumo de carne? A Organização Mundial da Saúde faz uma classificação, com base em mais de 800 estudos, de alimentos e substâncias de acordo com seu potencial cancerígeno. As carnes processadas pertencem ao grupo 1 (onde há evidências suficientes para estabalecer relação entre o alimento ou substância e o potencial aparecimento da doença). Para colocar isso em contexto, o tabaco está na mesma categoria – embora a classificação não compare percentuais de risco.

Entende-se por “carnes processadas” qualquer carne que passe por algum processo, incluindo mera adição de substâncias (ainda que apenas o sal), com finalidade de preservação. Assim, todos os embutidos (salsichas, linguiças, frios, bacon, etc), carne seca, carnes pré salgadas, são comprovadamente cancerígenos. O sanduíche de presunto ou peito de peru que, estranhamente, chamamos de “natural”, e oferecemos regularmente às crianças, é potencialmente cancerígeno, segundo essa posição da própria OMS.

Mas e as carnes vermelhas sem processamento? Elas estão no grupo 2, reservado a substâncias e alimentos sobre os quais existem fortes evidências observadas entre seu consumo e o aparecimento de câncer, mas ainda inconclusivas. Assim, a OMS não recomenda uma quantidade específica para o consumo diário ou semanal de carne e diz apenas que “o risco de câncer aumenta proporcionalmente à quantidade de carne consumida.” O que implicitamente sugere que não consumir nenhuma carne seja o ideal. Embora isso não seja dito desta forma, é uma questão de compreensão lógica da afirmação.

Em resumo: o consumo de carnes não é necessário à boa saúde humana, traz uma boa parcela de riscos reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde e os benefícios da ingestão de carnes podem ser encontrados em alternativas vegetais. Em outras palavras, é sensato presumir que os benefícios não justifiquem os riscos.

E nem estamos falando ainda dos riscos relacionados ao meio ambiente e pandemias como a do Corona Vírus, que se originam em consequência das condições propícias à disseminação de vírus de animais para humanos, presentes na indústria animal, que só existe porque existe também a demanda. Será que podemos falar em alimentos saudáveis quando os processos envolvidos em sua produção adoecem o meio ambiente e criam riscos à saúde pública? Claro que não. E isso se aplica a todos os tipos de criação de animais para consumo humano, seja por suas carnes (vacas, porcos, galinhas, peru, etc) ou por seus derivados (ovos e leite) – e seja no formato de indústrias formais ou no formato de mercados como os da China, de onde se originou o Cornoa Vírus. A demanda por consumo de carnes de animais cria condições propícias para problemas de saúde pública.

E a Vitamina B12?

Nós, humanos, produzimos essa vitamina, mas não a absorvemos – a excretamos, em função da parte do intestino na qual é produzida. O mesmo acontece com a vaca. Então, por que as carnes são boas fontes de vitamina B12?

Essa vitamina é produzida por bactérias e encontrada na terra. Se não higienizássemos os vegetais que comemos, estaríamos ingerindo vitamina B12, da mesma forma que a vaca o faz – através da alimentação. É no processo de ingestão dessa vitamina que ela se armazena no corpo – no nosso e do animal. Em outras palavras, comer carne para adquirir vitamina B12, é suplementar através do corpo de outro animal. Assim, atualmente, as melhores fontes de vitamina B12 são alimentos fortificados ou suplementação. E isso vale, inclusive, para pessoas que consomem carnes: os percentuais de carência e deficiência de vitamina B12 entre veganos e onívoros não diferem muito.

PEIXES

Seriam, então, os peixes uma boa alternativa às carnes? Eles não são a principal fonte de Omega-3? Bem, temos 2 problemas relacionados aos peixes que dizem respeito à saúde humana:

  1. Metais pesados: nossas águas estão poluídas. Estes metais pesados se acumulam nos tecidos de alguns peixes e, ao consumí-los, consumimos também estes metais tóxicos.
  2. Muitos peixes vendidos no mercado não vêm de águas naturais, e sim de criadouros. Estes animais são alimentados com ração e não comem as algas, que são a verdadeira origem do Omega-3 presentes nos peixes. Ainda pior, muitos salmões de criadouros recebem na alimentação corantes para ficarem com uma cor mais atrativa ao consumidor. Assim, comer um peixe sem conhecer a procedência, não garante Omega-3 na sua dieta – mas garante o consumo de mais gordura saturada.

Metais pesados são tóxicos ao nosso organismo. Substituir as carnes por consumo diário (ou múltiplas vezes na semana) de peixes, posa um risco à sua saúde e à saúde de crianças.

De onde, então, devemos tirar o Omega-3?

As principais fontes vegetais de Ômega-3 são as algas (nori, chlorella), a chia, a linhaça (e óleo de linhaça) e nozes. Mas há de ser feita uma distinção: os 3 tipos principais de Ômega-3 são ALA, EPA e DHA, considerados essenciais, porque não os produzimos e precisam ser adquiridos através da alimentação. EPA e DHA são cadeias completas, ao passo que o ALA é uma cadeia incompleta, que precisa ser convertida nos outros dois tipos pelo corpo, para se tornar biologicamente ativa e oferecer os benefícios associados à saúde do coração, do cérebro e de outros processos internos. Esse processo de conversão não é muito eficiente em humanos e apenas um baixo percentual (de 1 a 10%) é convertido. A única fonte vegetal de cadeia completa (EPA e DHA) são as algas.

Assim, considerando os problemas associados ao consumo de peixe (que se extendem aos suplementos sem certificação de ausência de metais pesados), veganos e não veganos devem compor sua ingestão de Ômega 3 através das fontes vegetais de ALA, somadas às algas em sua forma natural e em forma de suplemento (existem suplementos de Ômega-3 de algas).

LEITE E DERIVADOS

De todos os produtos de origem animal, o leite de vaca e seus derivados (laticínios) são, talvez, os mais problemáticos:

  1. As vacas leiteiras frequentemente precisam receber antibióticos para combater mastites causadas pela ordenha mecânica. Estes antibióticos passam para o leite, assim como acontece na amamentação humana.
  2. Essas infecções produzem pus. Mas as vacas precisam continuar produzindo. Assim, dada a inviabilidade de retirar esse pus do leite extraído, você sabia que existe um percentual de pus por litro de leite permitido por lei? Sim, é isso mesmo que você leu – no Brasil esse limite corresponde a 1.000.000 cel/mL, onde “cel” representa “células somáticas”. As bactérias desse pus são inativadas pelo processo de pausteurização. Mas, ao dar ao seu filho um copo de leite de manhã, ou um pedaço de quaijo no sanduíche, saiba que parte desse alimento corresponde a pus pausterizado.
  3. Humanos são a única espécie entre os mamíferos a consumir leite após o desmame natural. E consumimos leite de outra espécie – o que não faz muito sentido. A função do aleitamento é a sobrevivência e desenvolvimento dos bebês (ou filhotes) até que o sistema digestivo possa processar sólidos adequadamente. Após o desmame, o corpo vai parando de produzir a lactase, que é a enzima responsável pela quebra da lactose presente no leite. A massiva maioria dos adultos não produz lactase e a isso damos o nome de “intolerância à lactose”. Mas essa é uma grande falácia: nosso corpo não foi feito para continuar produzindo lactase, quando ela só é necessária à sobrevivência na fase de aleitamento. A expressão “intolerância à lactose” sugere que haja algo de errado com o organismo que não produz lactase pós desmame. Quando, na verdade, a interrupção dessa produção é um processo absolutamente natural. Não somos intolerantes à lactose. Simplesmente não somos bezerros.
  4. O leite de vaca é produzido para alimentar o filhote da vaca. Um bezerro que nasce muito maior do que um bebê humano, que precisa crescer e engordar mais rapidamente para sobreviver, que tem um sistema digestivo distinto dos humanos para processar os componentes do leite que recebe, com concentrações de proteína, carboidratos e gorduras muito superiores às do leite humano. Essas quantidades são adequadas para bezerros – não para humanos.
  5. A caseína, proteína do leite, é particularmente problemática. A caseína do tipo A1 é comprovadamente inflamatória ao corpo humano. Presente também no leite materno em proporções adequadas a bebês humanos, a caseína nas quantidades e composição contidas no leite de vaca estão diretamente associadas à hiperpermeabilidade intestinal e a problemas recorrentes no trato respiratório, como otites, rinites, sinusites, amidalites, bronquites e asma – bem como problemas de pele e outras condições de saúde. Crianças que ficam muito doentes com problemas no trato respiratório costumam ter remissão imediata ou diminuição significativa de sintomas após a retirada de leite e derivados da alimentação.
  6. Um problema adicional da caseína é que, no processo de digestão, essa proteína é quebrada no peptídeo casomorfina. A casomorfina é um opióide que se liga a receptores de dopamina no cérebro, ativando a produção dessa substância responsável por sensações de prazer em um processo equivalente ao que acontece com drogas como a cocaína. Alguns pesquisadores teorizam que a casomorfina representa um mecanismo natural de sobrevivência, que faz com que os bebês (e filhotes de mamíferos) formem vínculos com as mães e tenham a sensação de bem estar durante a amamentação, para continuarem a se alimentar. O problema com a casomorfina derivada da caseína do leite de vaca é que ela existe em proporções muito superiores à do leite humano, transforma-se em quantidades significativas desse opióide, criando um verdadeiro vício químico. Nos queijos, a concentração de caseína é ainda maior – e explica por que a maioria das pessoas acha tão difícil abrir mão do consumo de queijo: a casomorfina causa dependência química, assim como a morfina utilizada como medicamento analgésico, porém com potência superior.
  7. Embora o leite seja uma excelente fonte de cálcio, nutriente ingerido não necessariamente corresponde a nutriente absorvido. A absorção de nutrientes depende diretamente da saúde do intestino. A qualidade inflamatória do leite e seus derivados compromete a saúde intestinal, o que diretamente interfere na absorção do cálcio que o alimento fornece. Mais do que isso, para que o cálcio seja utilizado pelos ossos, outros nutrientes associados são necessários (vitamina D, K2 e magnésio). A vitamina D é obtida através de exposição ao sol, mas K2 e magnésio precisam ser absorvidos em partes distintas do intestino. Se o leite está causando inflamações justo neste órgão, a absorção destes outros nutrientes fica também comprometida. Ou seja: beber leite ou consumir laticínios, alimentos inflamatórios, pelo seu conteúdo de cálcio, é contraproducente e análogo a consumir Coca Cola pelo seu conteúdo de água.
  8. Os maiores benefícios percebidos pelo consumo de leite – cálcio e proteínas – também existem em abundância e maior biodisponibilidade em fontes vegetais.

Para uma explicação bem mais detalhada sobre os ítens acima, recomendo que você assista este vídeo, do médico Samuel Dalle Laste. Ou, em versão mais resumida, este vídeo da médica nutróloga Ingrid Serafim.

OVOS:

O ovo nada mais é do que a menstruação da galinha – então, começo perguntando: a menstruação de qual outro animal você comeria ou daria aos seus filhos?

Já houve muita controvérsia a respeito de ovos – já foi visto como vilão, já foi visto como aliado. A indústria de ovos vende a idéia de que esta seja a proteína ideal, mas se olharmos para a composição dos ovos, eles possuem alta densidade de proteína em meio a uma alta concentração de gordura saturada e colesterol. Voltamos à mesma lógica de outros alimentos de origem animal: precisamos de proteína, mas será que para nos beneficiarmos da concentração de proteína do ovo precisamos ingerir junto com ela essa altíssima concentração de colesterol e gordura saturada, quando fontes vegetais são mais do que suficientes para suprir essa necessidade proteica?

Além disso, proteínas vegetais vêm acompanhadas de vitaminas, minerais e fibras, ausentes nos ovos. Se pensarmos no total de calorias consumidas em um dia, não faz muito sentido a escolha de um alimento riquíssimo em gorduras que, além de não fornecer nenhum outro tipo de micronutriente relevante, ainda posa risco à saúde das artérias.

Então, como fica a alimentação infantil, sem produtos de origem animal, para ser saudável?

Ela deve ter foco intenso em alimentos integrais naturais, preparados através de métodos que não envolvam excesso de sal e óleos refinados, e passar longe dos refinados, ultraprocessados ou alimentos ou contendo ingredientes artificiais ou açúcares refinados.

Comer está entre as necessidades básicas essenciais do ser humano. Assim como combustível é uma necessidade básica essencial para o funcionamento de um veículo e a qualidade do combustível interfere no seu funcionamento, em sua vida útil e em potenciais problemas de performance, a qualidade da alimentação na infância também interfere no desenvolvimento presente, na longevidade da vida adulta e nos problemas de saúde que podem aparecer, em qualquer estágio da vida, em consequência de uma alimentação inadequada contínua.

Então, se queremos investir na saúde das crianças e dar a elas uma base nutricional otimizada e um conjunto de hábitos que as ajudem a manter a saúde na idade adulta, é crucial nos educarmos, nos informarmos e fazermos mudanças onde necessárias.

Como fazer isso na prática é objeto de trabalho do coach de saúde, em conjunto com o pediatra e nutricionista. E ajudar famílias no processo de construção destes hábitos, formando crianças que se alimentam bem, aprendem não só a fazer escolhas alimentares saudáveis por toda a vida, mas também compreendem a importância dessas escolhas como forma de amor próprio e auto cuidado, é o propósito que me move no exercício da profissão.

Os cenários familiares são diversos, os históricos alimentares ídem, então cada caso deve ser avaliado individualmente. Mas existem alguns aspectos comuns a quase todos os cenários, que eu vou abordar em publicações no blog – então, fique de olho. Vamos falar em:

  • Dificuldades em manter consistência
  • Falta de tempo para focar em refeições saudáveis
  • Pressões sócio-culturais e familiares
  • O que fazer com relação à recusa de alimentos saudáveis
  • Como fazer a transição da alimentação infantil de pouco saudável para saudável
  • Como fazer a programação metabólica, peça fundamental das preferências de paladar
  • Como reduzir e eliminar o açúcar
  • O que fazer quando a criança só quer comer um tipo de alimento ou combinações de alimentos
  • Divergências durante consultas pediátricas com relação à alimentação infantil vegana ou vegetariana
  • Como lidar com o contexto da escola
  • Como planejar e preparar lancheiras saudáveis
  • Como planejar uma gravidez saudável
  • Como conduzir uma gestação saudável
  • Formas estratégicas de introdução de sólidos ao bebê
  • Práticas alimentares saudáveis durante o aleitamento materno
  • Crianças veganas e festas infantis
  • Apoio de nutricionistas

Enquanto isso, se você gostou do que leu até aqui e tem interesse em fazer acompanhamento de coaching, fique à vontade para entrar em contato e marcar uma consulta. Os atendimentos online estão disponíveis.


Veja o que já tem no blog sobre este assunto:

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